Foto: Gustavo Tamazi

Reflexões sobre a física, filosofia e sociologia dão conta de que a inventividade do homem esbarra na incapacidade de recriar o tempo. Ao contrário, para ganhá-lo, nos tornamos escravos de nossas angústias e desejos. Entre, sente-se e desligue o cronômetro. Seja bem-vindo à era da falta de tempo!

Um prólogo sobre o tempo, sobre a sociedade…

Pare um pouco o que está fazendo e dedique um tempo a este texto. Neste momento, pense em nada. Tente fazer isso por cinco, dez, quinze minutos, depende do tempo que leva para ler. Prometemos ser breves, talvez, mas, com certeza, úteis.

No mesmo tempo em que você está lendo esta reportagem, sobre o tempo, milhares de mensagens via celular são enviadas. Milhões de cliques em páginas da internet são dados. Milhões de perfis, em redes sociais são visitados e bilhões de likes em fotos e comentários são feitos, ao redor do mundo.

O homem conseguiu recriar e inventar quase tudo, menos o tempo

O homem conseguiu recriar e inventar quase tudo, menos o tempo. Tornou-se escravo dele e hoje lamenta os minutos perdidos – inclusive, sobre aquele dedicado a uma boa leitura.

Não há tempo para coisa alguma. Todos correm em um frenético vai e vem, apressados para ganhar dinheiro, fazer algo a mais para si, a fim de garantir uma boa escola para os filhos ou aquela viagem de férias e esquecem de que o tempo que se esgota nessa busca incessante não volta. É impossível de ser freado, comprado, retrocedido.
Está com tempo ainda? Siga com a gente.

Para a física, o tempo está dentro de uma concepção realista, ou seja, ele existe mesmo. Em dimensões diferentes, caminhos e distâncias, o tempo cruza por nossas vidas e altera o curso dos acontecimentos.

Contudo, na própria física ele causa controvérsia. Isaac Newton acreditava em uma linearidade absoluta. Para ele o tempo era único. Seu colega, Albert Einstein, já via o tempo com outros olhos. O físico alemão explicou que o tempo é relativo. Que está ligado a uma dimensão. Em outras palavras, falar de tempo é falar do espaço. Qual é o seu espaço? Se sua dimensão está entre o mundo virtual e o real, você sente a falta de tempo, pois o tempo presencial é diferente do virtual.

Adolf Hitler acreditava que dominaria o mundo com o uso do telégrafo. Pobre ditador. Se tivesse conhecido os modernos smartphones, riria de si mesmo.

O tempo das experiências

Para o professor de filosofia da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc) e membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise, Júlio Bernardes, o tempo visto por meio do pensamento – psique –, está ligado às experiências pessoais de cada indivíduo. Quando essas experiências são permeadas pela tecnologia, a contagem do tempo é distorcida e é aí que mora o perigo. “Por isso que temos a impressão de que estamos vivendo um delay (atraso) em relação ao que acontece. Parece que o tempo já passou, porque a experiência é outra, o estar presente é diferente”.

(...) pelo simples fato de agregar a tecnologia ao nosso cotidiano, quebramos a linearidade do tempo. Reinventamos a lógica do viver conectado e por isso temos a impressão de que estamos sempre atrasados

O que a filosofia quer dizer é que, pelo simples fato de agregar a tecnologia ao nosso cotidiano, quebramos a linearidade do tempo. Reinventamos a lógica do viver conectado e por isso temos a impressão de que estamos sempre atrasados.

Georg Wilhelm Friedrich Hegel: você já ouviu falar dele? O filósofo alemão, que viveu na época do vapor e não do digital, já previa que o tempo é dialético, ou seja, antecipou Einstein: é relativo. O pensamento de Hegel diz que o passado se repete no presente, pois continua naquilo que já aconteceu e projeta no futuro uma continuidade do passado. Meio maluco? É, falar de tempo é assim.

Foto: Gustavo Tamazi

Foto: Gustavo Tamazi

O tempo e a modernidade

Estudiosos contemporâneos atribuem à pós-modernidade a culpa pela velocidade do tempo. Municiamo-nos de equipamentos eletrônicos para acelerar nossas tarefas. Para ficar mais tempo livre? Negativo: justamente para fazer mais, produzir mais. Ganhar mais!

O advento eletrônico transformou o mundo em digital, conectado e sem tempo. O que Alvin Toffler, estudioso norte-americano, previa em 1980 como a “terceira onda” ou a “era da informação”, já estaria, considerando o que o autor entendia por pós-moderno, na quinta ou sexta onda. Quiçá, um tsunami sobre nossas pobres cabeças mortais e sem tempo.

O homem contemporâneo chegou ao clímax da tecnologia, mas se esqueceu de gozar enquanto havia tempo. Agora, corre atrás do prejuízo e tenta descobrir um meio de frear a correria das horas, dias e minutos para conseguir respirar. Possível? Você pode ter essa resposta!

A síndrome da falta de tempo

Quando olhamos sem parar para o relógio e nos sentimos atrasados – e isso acontece mais que uma vez por dia –, sofremos da síndrome da falta de tempo. No campo da psique, a impotência é tratada como uma psicopatologia causada pelo efeito colateral da tecnologia.

No entanto, algumas pessoas conseguem escapar dessa moléstia: colocam o valor do tempo – o capital intangível que mencionamos no início desta discussão – como o mais valioso de suas vidas e elevam sua condição.

Não pouco comum, em um movimento contra-contemporâneo, é possível observar profissionais que deixam seus afazeres corridos para retornar ao campo, que um dia tirou as famílias da vida natural para açoitá-las com a falta de tempo na selva de pedras.

Desligar o celular da rede de dados pode ser um bom exercício para deixar de viver no movimento alucinado da informação.

Foto: Gustavo Tamazi

Foto: Gustavo Tamazi

O desafio do tempo

Quanto tempo você levava para transmitir uma mensagem a alguém sem dispositivos móveis e recursos online? Estamos falando de cerca de cinco anos atrás, quando o advento da comunicação tanto mobile quanto por aplicativos se tornou de massa.

Pois é… Quantas vezes, ao ler esse texto, você mexeu em seu smartphone, para ver quem está ativo no WhatsApp, leu uma mensagem ou até mesmo respondeu para suas dezenas de contatos ou grupos? Se você está nessa, amigo, você sofre da síndrome da falta de tempo – desculpa aí.

A máquina do tempo da modernidade consome a experiência presente, que parece estar sempre no passado e todo o resto no futuro

Hegel, aquele velhinho simpático que lá atrás falou em tempo cíclico, ou que se repete, acreditava também que na ânsia de dominar a natureza, suas forças e a própria vida na Terra, o homem tenta controlar o tempo. De certa forma, consegue.

Enquanto você devora os recados em seu telefone, está escravizado. Consumindo o conteúdo, dispondo de seu tempo, que passa a ser menor, por conta dos minutos e horas que dedica a comunicação digital. O tiro acertou o pé. Inventamos um mecanismo para controlar o tempo, distorcendo espaço e dimensão – como diria Einstein –, e nos prendemos a ele.

A máquina do tempo da modernidade consome a experiência presente, que parece estar sempre no passado e todo o resto no futuro.

O tempo e o trabalho

Olhe a sua volta. Quantos equipamentos fazem você trabalhar mais, em menos tempo. O professor de Administração, Celso Cardoso Pitta, mestre da Universidade Paulista (Unip), frisa que é no ambiente de trabalho que estão as maiores armadilhas do tempo.

Segundo ele, o mercado de trabalho contemporâneo defende a lógica da “rapidez como sinônimo da eficácia”.

Comum é ver seu chefe dizer: “Fulano, isso é para ontem!”. A primazia na execução das tarefas, tendo o relógio como o escravizador, é confundida com a administração do desempenho. Pitta diz que essa linguagem administrativa “viola as regras básicas da convivência e dificulta a formação do pensamento criativo”.

Será que o mundo acelerou?

Desde a década de 1950, estudiosos do mundo todo dedicam seu tempo – olha só –, para estudar a falta dele. Uma das teorias mais famosas – e uma das mais controversas também – é a Ressonância Schumann. Ainda há tempo de ler? Está ficando mais interessante…

O físico alemão W.O. Schumann constatou em 1952 que a Terra é cercada por um campo eletromagnético poderoso que se forma entre o solo e a parte inferior da ionosfera que fica cerca de cem quilômetros acima de nós, criando o que se chamou de “cavidade Schumann”.

Nesse espaço, de acordo com o físico, se produz 7,83 hertz por segundo, em uma espécie de pulsação. É como se fosse o marca-passo da Terra, garantindo a manutenção da vida no planeta. Essa frequência – 7,83 hertz – também é a mesma encontrada no cérebro da maioria dos seres vivos.

Ao aplicar a teoria de Schumann, a partir dos anos 1980 e de forma mais acentuada a partir dos anos 1990, a frequência passou de 7,83 para 11 e, após, para 13 hertz por segundo. O “coração” da Terra disparou e parece que acelerou tudo junto com ele, especialmente, seu tempo precioso.

Embora controverso, o físico alemão é defendido por outros estudiosos de renome. O teólogo brasileiro Leonardo Boff acredita que a frequência da Terra – os 7,83 hertz por segundo, impactam, sim, a vida dos seres humanos.

Em um de seus escritos, Boff cita que os astronautas, ao ficarem muito tempo fora do campo magnético do planeta, sofrem os efeitos, também da ausência dessa frequência.

No entanto, nem mesmo a ciência confirma a teoria de Schumann. E existe “um milhão” de métodos empíricos e teses para tentar desacelerar o cérebro de quem, assim como propõe o físico alemão, disparou junto com a Terra. Uma das alternativas é tentar ficar livre da tecnologia pelo menos um dia por semana. Você é capaz?

Foto: Gustavo Tamazi

Foto: Gustavo Tamazi

Prozac não cura falta de tempo

Embora psicanálise e filosofia desfrutem de áreas distintas do conhecimento, entrelaçam-se no conceito, pois ambas trabalham com o pensamento.

As ciências admitem que chegará ainda o tempo da doença causada pela falta de tempo. A doença da alma, cujo tratamento do pensamento – a psicanálise – ficará represada nos consultórios. “A lógica cotidiana é outra. Quem tem tempo de ficar duas horas em um consultório falando de seus problemas? É muito mais fácil tirar a dor da alma com o Prozac ou com o Rivotril. Sobra mais tempo”, reflete o filósofo Júlio. Prozac, para os menos íntimos é a famosa Fluoxetina – agora você sabe de quem estamos falando.

Porém, nem toda Fluoxetina do mundo é capaz de curar a ânsia da humanidade por tempo, pelo consumo da presença, pelo afeto, pelo espaço dedicado a si e suas angústias.

“Chegarão novas disfunções, neuroses patológicas causadas pela fuga do ‘eu’ e dos problemas, antes curados com a psicanálise, hoje estancados pelos medicamentos”, prevê Júlio Bernardes.

Para não ficar doente, desconecte-se, viva mais para si e seja menos ansioso. Será que é possível? Tentar não custa, a não ser um pouco de tempo. Se você conseguiu chegar até aqui, pode dar certo.

Fala aí
Outras

Apesar dos diferentes estilos das sociedades alternativas, existe um elo forte entre elas que – independente de qualquer entendimento, filosofia ou postura dos seus membros – as une: a negação…

Chega de usar "cultura" como arma discriminatória sobre o outro: #SomosTodosCultura!

Dobro + Bravo